CHILE, NY E AQUI (*)

 

Affonso Romano de Sant’Anna

 

O fato de ter dado aula na Universidade de Concepción, Chile, - epicentro do terrível terremoto desta semana, me tocou de um modo especial. Não é uma cidade qualquer do mapa, é um espaço afetivo onde encontrei pessoas sensíveis e amigos que conservo. Já havia estado ali antes durante o centenário de Neruda, num circuito poético pelo pais.

Passadas as primeiras notícias do desastre natural, infelizmente, chegaram outras notícias, ainda mais chocantes mostrando o  desastre que é o ser humano: pessoas que pareciam normais, dessas que a gente encontra em qualquer cidade, transformaram-se em saqueadores e assaltantes. O instinto superou a civilidade e a parte predatória e canibalesca de cidadãos honrados emergiu  desencadeando incêndios e saques.

Todos pensamos: o Chile, um país que se gaba de ser dos mais adiantados do continente, com alto nível de alfabetização, com uma população politizada, de repente, caiu na barbárie. O Chile mostrou o seu lado de Haiti .

E o segundo pensamento igualmente desapontador me ocorreu: isto poderia acontecer em nossas cidades, no Rio, por exemplo. E, imaginando um apocalipse social e ético onde vivo, estremeci pensando que isto poderia se dar em qualquer cidade. Nas cenas transmitidas pela televisão, não eram pessoas pobres apenas que viraram feras. Isto é o que ocorre: súbito o lado obscuro, primitivo e irracional dos indivíduos emerge  quando se deslocam algumas placas não apenas geológicas, mas éticas. E estamos diante da horda primitiva.

O ser humano é uma estrutura delicada e frágil. Não é necessário que o tremor seja 8.8 na escala Richter, qualquer tremor mais significativo e estamos diante da ambigüidade do  médico e do monstro.

         Será, então, que só podemos viver socialmente se tivermos repressão? Será que ao menor sinal  de “liberou geral” nos trucidamos e nos afundamos no caos?

         Sei por outro lado, que o lado generoso e heróico  que há em nós também se vê motivado e pode diante da tragédia  fazer proezas comoventes e exemplares. Isto felizmente ocorre, mostrando que somos duplos, ambíguos e imprevisíveis.

         Escrevo isto enquanto estou aqui em Nova York. Esta cidade com suas armações de aço, as sirenes de polícia e de bombeiros, tem um quê de suspense. Há uma permanente sensação de que, de repente, algo terrível  pode acontecer. E às vezes acontece. Fui visitar de novo o  “Ground Zero”, o lugar onde as torres do WTC desabaram naquele 11 de setembro.  Ao lado há um memorial da tragédia. O que é sólido se desmancha no ar.

 

 

 

         Nossa civilização ( que palavra precária!) produz suas antinomias. Estou andando pela 5a. Avenida e olho a vitrina de uma famosa loja  de roupa, e lá está escrito algo chocante, que  não choca outros passantes, senão a mim: “Diesel: we’re with stupid”( Diesel: estamos com os estúpidos). E mais outro cartaz se gabando do que temos de pior: “Be Stupid”(Seja estúpido). Ou seja, a estupidez tem seu marketing e seu charme. O publicitário que fez essa frase expressou algo brutal de nossa prática social.

         Assim nossa cultura emite mensagens contraditórias. De novo síndrome do médico e do monstro: há um tipo de diversão, um tipo de arte e até um tipo de moda que cultiva a estupidez abertamente. Neste caso, não é preciso esperar um terremoto para assistirmos ao  espetáculo da estupidez humana. Pode ocorrer, e ocorre, dentro da condições normais de temperatura e pressão quando o dia parece límpido, sem nenhuma  tsumani nem deslocamento de placas tectônicas.

         De repente, a fera emerge dentro de nós. No Chile, em Nova York ou aqui.

 

(*) Estado de Minas/Correio Braziliense- 7.3.2010