30.01.2010- MiguelSanchez Neto manda email dizendo objetivamente: Morreu meu mestre e amigo Wilson Martins. Está sendo velado na capela 3, Cemitério Luterano, em Curitiba, ao lado do Estádio Couto Pereira.
Estou em Friburgo, uma estupenda manhã lá fora. Acabei de fazer a barba e ia ler jornais, pegar a enxada e plantar, adubar alguma coisa no jardim (da vida). Essa notícia é um solavanco, cria um vácuo imediato, embora há uns 2 meses o Márcio Renato da "Gazeta do Povo "tenha me encomendado um obituário ou depoimento sobre Wilson, porque o jornal temia que ele morresse de uma hora para outra.
Lembrei-me de episódio semelhante com o Drummond, quando Zuenir - editor do B do JB- me pediu um artigo/ensaio sobre o poeta que estava no hospital. Escrevi-o. Com todo o estranhamento de falar de um vivo como se morto. De fato, Drummond sobreviveu e chegamos a nos encontrar na rua e a falar ao telefone mesmo depois de ter escrito sobre ele defunto.
Com o Wilson, idem. Não o encontrei depois do que escrevi, mas nos falamos por telefone, ele havia voltado do hospital, a voz fraca, mas sempre a mesma ironia. Como seus artigos no JB sumiram, pensei que ele havia feito uma pré-retirada daquilo que foi toda a sua vida: a escrita, a critica.
Já fui lá fora, já plantei várias coisas, espalhei adubos aqui e ali, cavei ao redor dos pés de várias plantas e aqui volto a pensar em Wilson e sua vida/obra/morte. O essencial eu já disse em outras oportunidades: sua obra é única dentro do Brasil e talvez não tenha paralelo mesmo lá fora.Não se pode estudar a literatura e a cultura brasileira sem ler seus livros. Os muitos volumes da História da Inteligência Brasileira, feita quando não havia internet nem computador manual e por uma pessoa como ele, com deficiência física, aborda aspectos que extrapolam a literatura e trata de aspectos e autores que escaparam à atenção de outros. As dezenas de volumes de Pontos de vista retratam suas criticas em jornal desde os anos 50. É a história da literatura no calor da batalha, na hora em que aparecem os livros. E isto se soma à didática Historia da Escrita e uma vasta experiência pedagógica nos Estados Unidos e Brasil. Foi-se mais um gigante da critica e da cultura brasileira.
Diz minha mulher que com a morte de WM desparece toda uma época, não apenas do rodapé ou da crítica semanal, mas da critica que se fazia antes do mercado, do marketing e deoutras forças mediáticas ocuparem um espaço que era literárioe cultural. Quem sabe,morto ,menos ameaçador para alguns, sua obra comece a se expandir e ocupar o espaço que merece.

