TRAFICANDO POESIA (*)

Postado por Affonso Romano, em 30/08/2010, às 18:43

 

 

         Bogotá- Há quase 30 anos que faço o tráfico de poesia e de literatura entre Brasil e Colômbia. Certa vez aqui na alfândega até me olharam com suspeita. Agora, por exemplo, estou hospedado na Zona Rosa- uma ilha de prosperidade multinacional com shoppings, gente rica, segurança e aqueles  cães  com focinheiras, belos restaurantes e cafés. Essa é uma paz aparente. Aquela guerrilha maluca do narcotráfico continua atormentando as pessoas. Há alguns anos, numa recepção no Palácio Presidencial, o então presidente Samper me disse que  tinha balas no corpo- conseqüência de um atentado. Contei-lhe que o chofer que havia me levado ao palácio também tinha pedaço de bala no corpo, e o presidente Samper mandou-lhe um bilhete acolhendo-o na Ordem dos Colombianos com Balas no Corpo.

Ontem fiz uma palestra e li poemas na CASA DE POESIA SILVA, agora dirigida por Pedro Alejo. Anteriormente a diretora era Maria Mercedez Carranza, poeta, que se matou deprimida pela situação do pais. Alias, o patrono da Casa- poeta José Asunción Silva também se matou. Não é nada fácil ser um escritor colombiano nesses dias. O poeta Dario Jaramillo tem uma perna mecânica, porque foi vitima num atentado.

E, no entanto, a Colômbia resiste e avança. E a leitura, a poesia e as bibliotecas fazem parte do avanço e da resistência. Almoço com Ana Fornaguera (que dirige a Biblioteca Nacional) Carmen Barvo ( Fundalectura) e Margarida Duran( Instituto Brasil Colômbia), e me informo. Medellín, que era uma cidade problema, agora tem uma  fabulosa biblioteca no meio da maior favela, que virou modelo para iniciativas brasileiras. O país avança e há uma grande confiança no  recém empossado presidente Juan Manuel Santos. Retomou o diálogo com o desvairado Chávez da Venezuela e acabou com o polêmico projeto de instalação de bases americanas na Colômbia.Como  disse um jornalista, esse era um projeto da era Bush-Uribe, não da era Obama-Santos.

Aqui acompanham com muito interesse o que ocorre no Brasil. Leio um editorial no jornal “Nuevo Siglo”. Diferente dos jornais brasileiros  que dão uma visão sempre negativa do Brasil, a imagem que temos aqui fora hoje  é a melhor possível. Vai ver que Nelson Rodrigues tinha razão: o brasileiro é um Narciso às avessas, sempre cospe no próprio rosto.

Os colombianos olham o Brasil quase que extasiados com o que   temos feito. O problema é de escala. Eles lutam para dar emprego a 2,3 milhões de colombianos e o Brasil criou 23 milhões de novos empregos. Prova do interesse pelo Brasil é o Instituto Brasil Colômbia, dirigido por Magarita Duran, que está recebendo uma enchente de alunos e vai ter que mudar de sede para atender a todos.

Minhas perplexidades e minha vida passam por este pais. Se me permitem revelar, há tempos recebi até a Medalha de Cidadão de Medellín. Quando Alberto da Costa e Silva era embaixador aqui ele congregava toda a intelectualidade do país em sua casa. E muita gente não sabe, mas o nosso Guimarães Rosa, servia aqui em 1948 quando houve aquela revolta chamada “Bogotazo”( olhem no Google). Estou me lembrando de um passeio com o filósofo Rubem Sierra, há tempos, pelo centro histórico de Bogotá. Mostrava-me ele todas as marcas da antiga violência na arquitetura da cidade. Sim, somos violentos: Brasil, Colômbia ou México. Exercitamos a violência internamente. Já os Estados Unidos, Inglaterra, França, Espanha e Bélgica,  em sua vocação colonialista, exercitam  a violência  para fora, nos países alheios.

 

Estou lhes escrevendo pouco antes de ir ao Instituto Brasil Colômbia para dizer poemas e conversar com o público.  No dia seguinte vou para uma cidade do interior- Pereira, onde ocorre um festival internacional de poesia.

 

Poesia também é uma droga. Mas ligada à vida.

 

(*) Estado de Minas/29.08.2010

 

 

 

(*) Estado de Minas/29.08.2010

 

 


PEREIRA: ULTIMO DIA

Postado por Affonso Romano, em 29/08/2010, às 01:45

 27.08.2010-Uma visita pelo interior, saindo de Pereira, passando por Armenia e chegando a Cocoro: ali uma espécie de rancho/restaurante numa paisagem belíssima onde sobressaem nas montanhas as palmas de cera- árvore nacional da Colômbia: é uma palmeira altíssima sempre afastadas umas das outras, mas que marcam  o horizonte ondulado original como moldura e paisagem.

Depois passagem por uma pequena cidade de onde Bolívar partiu para mais conquistas. É  pequena, com uma praça e sobretudo uma rua de comércio ( rua Real) onde de vende artesanatos, e vai dar numa montanha que se sobe para contemplar, lá de cima, o vale onde estão as palmas de cera.

           A última apresentação dos poetas convidados para este festival foi numa praça pública. (Grande risco pensei eu). E ali fontes luminosas jogando jatos de água altíssimos e lindos, compunham um balé de formas e luzes enquanto os poetas numa espécie de ilha/ círculo diziam seus poemas para um grande público atentíssimo.

         No principio havia uma chuva miúda e, é claro, pensei e disse ao Ledo Ivo que ia ao meu lado: não vai dar certo. Deu. A chuva parou, e, aliás,mesmo com chuva, dezenas de pessoas já estavam lá, muitas das quais já nos haviam ouvido várias vezes.

         Era bonito ver o rosto das pessoas se modificando, se emocionando com os poemas, acompanhando seja as metáforas seja os poemas narrativos. Uns 15 poetas, tanto do Quebec, quando da América Latina leram seus poemas.

          O evento já faz parte do calendário local e se coloca ao lado de grandes festivais como  da Trois Rivière (no Canadá), Medellín ,Berlim e México.


COMENTARIO NA RADIO METROPOLE

Postado por Affonso Romano, em 28/08/2010, às 09:28

 

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