AOS 80 TAMBÉM SE AMA

Postado por Affonso Romano, em 07/02/2010, às 20:51

 AOS 80 TAMBÉM SE AMA(*)

 

 

Affonso Romano de Sant'Ánna

 

         Não se escandalizem, crianças!  Não se espantem, rapazes! Talvez vocês não se lembrem de um filme famoso intitulado  "Os brutos também amam", mas lhes informo que não apenas  os brutos e os jovem, mas os velhos também amam. É  isso que estou lendo numa revista francesa séria, que tem uma manchete que equivale a: " Nossa Senhora, a Vovó também trepa". E lá está a foto de dois idosos ( que palavra incômoda!)  se acarinhando.

         E a reportagem é uma pesquisa com  pessoas  que têm cerca de 80 anos. Elas estão inteiraças e mandando bala. Os especialistas criaram até uma nova expressão "os novos octos" ( a qualquer a hora a imprensa do Rio e São Paulo vai começar a falar disto). Os franceses gostam de encurtar certas palavras, "prof"  no lugar de professor, "filo" no lugar de filosofia, etc.. Pois aí estão  os  "novos octos" , os "novos octogenários".

E o repórter vai dando nomes e idades aos personagens entrevistados. Madalena, 80 anos, está febril para encontrar o seu Louis que chega de avião de Boston;  Maria, assistente social de 81 anos, está felicíssima por que encontrou  Dominique, 13 anos mais jovem, e lá se foi a solidãol  Marcel de 77 anos faz surfe com Ivone. E assim por diante. Enfim, pelo menos 70% desses idosos declaram que carecem de sexo, de uma maneira mais ou menos urgente, mas carecem.

         Quem, teoricamante,  primeiro escancarou a atualidade e a urgência desse assunto foi Simone de Beauvoir  num livro clássico "A velhice". Há que ler.

         É  como se a humanidade estivesse numa frenética reinvenção de si mesma. Vocês sabem que crianças são uma invenção recente, antes de Rousseau e outros elas apenas faziam parte do cenário alheio.  Outra invenção recente é a mulher,   outra o índio, outra o negro, outra o homossexual, e assim por diante. A imprensa e a sociologia estabeleceram que os jovens foram inventados nos anos 60- o "poder jovem".

         Pois aí é que surge uma coisa curiosa sobre esses que estão chegando aos 80. Todos os governos dos Ocidente deveriam erguer uma estátua  em homenagem a eles, porque  são pessoas que atravessaram historicamente alguns dos momentos cruciais dos últimos anos. Eles viveram a revolução sexual dos anos 60. (Olha aí o "maio  68" de novo, olha aí  a vida que não quer morrer). As mulheres atravessaram a revolução feminista,  viram seus filhos virarem hippies, arriscaram-se em várias experiências pessoais, sociais, familiares  e agora estão aí cruzando os 80.

         Dizem as estatísticas que entre 1980 e 2009 aumentou a percentagem dos que atingem os 75 anos. E o número dos que terão 85  anos deverá quadruplicar os de 75 daqui a algumas décadas.

         Não se trata de fazer uma paráfrase do "poder jovem" e  decretar " o poder aos velhos". Nada disto. Parece que esses que chamávamos de velhinhos estão querendo outra coisa, e isto, sim, é sinal de sabedoria. Peguem a palavra aposentadoria. Antigamente havia uma noção de aposentadoria totalmente danosa: o indivíduo se aposentava, ficava inativo e havia um pressuposto de que aposentava também seu sexo. Aposentado era um morto que se  esqueceu de deitar. Havia, no entanto, uma expressão contraditória, pois dizia-se: "gozar a aposentadoria".

         Havia aposentadoria. Faltava o gozo . E é isto o que os de oitenta anos estão buscando.

 

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(*) Estado de Minas/Correio Braziliense 7/02/2010

 

 

 

 

 


DETRAN, AEROPORTO, BIENAL

Postado por Affonso Romano, em 04/02/2010, às 16:36

               A caminho do aeroporto Santos Dummont converso com o chofer. Um amigo recebeu 5 multas do DETRAN, todas por não usar cinco. Detalhe: ele sempre usa cinto de segurança e nunca esteve naqueles lugares assinalados.

Ele foi saber como resolver. Deram várias sugestões. Recorrer, etc. Uma hipótese é que o carro foi clonado. Neste caso, sugerem, ele deve pedir a apreensão do veiculo.

Perplexo, ponderou:  e se a policia me prender?

  

 

Por que no aeroporto Congonhas(SP) eles não conseguem indicar corretamente os portões de embarque para os passageiros? Chegam a trocar três vezes e os passageiros igual barata tonta daqui pra li. É sempre. Uma tortura.

Hipótese: ou tem alguém muito incompetente gerenciando isto ou estão fazendo uma experiência científica sobre como desorientar multidões até que tenham um ataque de nervos.

 

 

Abro a FOLHA DE SAO PAULO. Noticia sobre os 8 curadores da próxima Bienal (depois do fracasso da “bienal do vazio”). Dois são  brasileiros, os outros importados( com currículo nessa área).

Vendo a foto tão arrumadinha deles  (e as idéias idem) me convenço que aquilo é um “time”, um “partido”, uma “religião”, algo muito bem arrumado ( e arte não é assim).

Anoto o discurso que fazem. Detalhe: os curadores ( há muito)  é que  detêm a “palavra”, os artistas são seus funcionários. Quando os artistas vão se libertar dessa escravidão e humilhação?

 Muita retórica. Muita pretensão. Diz um:  “É a abertura de novas frentes de pensamento”.

Essa  é a  prática discursiva do que tem dado certo para iludir incautos. Já demonstrei isto em O ENIGMA VAZIO. A arte virou um artefato literário ( e disto,modestamente,  eu entendo). Exemplo: um deles diz:  “Vamos emoldurar os intervalos de pesquisa”. Bonito não? Ou essa outra preciosidade: “Nossa idéia é que certa opacidade do discurso é fundamental”.        

         Nesse tom falam de  “textura do político”. Gostaram?  E nisto tudo outra frase sintomática: dizem que querem “criar um problema onde não havia”.

         Acho que é pior: estão criando problemas que não sabem nem podem resolver. Falsos problemas resolvidos com sofismas desmontáveis.

         Fora isto, torço para que a Bienal dê certo.


ERREI, ACABEI NA PRAIA

Postado por Affonso Romano, em 03/02/2010, às 11:52

 

 

 

Acordei cedo para ir dar uma aula inaugural na Universidade de  Chapecó, interior de Santa Catarina, e acabei no Arpoador.

A terra é redonda, do Oriente se vai ao Ocidente e vice-versa, mas desta vez  exagerei. Me equivoquei. Cheguei ao aeroporto e o rapaz do balcão me advertiu, seu vôo é amanhã!

Veja que sorte, pois não achando lugar no estacionamento do aeroporto   deixei o carro num lugar qualquer.  Não havia escolha. Era deixar ou perder o vôo. Como me disse o guardador, qdo voltei  (andando perigosamente sobre os canteiros do aterro igual a um desterrado), se deixasse o carro ali ele ia ser depenado.

Que fazer quando se erra? Transformar o equívoco em júbilo. Quer saber? Vou é para a praia. Um dia estupendo como esse...

Dito e feito.

Mar sereníssimo, praia de antigamente.

 Mergulho em Ipanema, vou andando pela areia e mergulhando de cem em cem metros. A literatura também é uma olimpíada, que os fracos abate, etc.

E me dou conta de uma coisa pavorosa: de como morando no Rio vou pouco à praia. Há sempre desculpas, além de ter um terraço em Ipanema. Mas hoje me vinguei de mim mesmo, da bobagem de errar o dia do vôo. Subo as pedras do Arpoador, vejo a amplidão azul, os barcos ao longe, os surfistas, os cães, os turistas. Tomo uma água de côco, como se tivesse chegado de Minas. Contemplo a favela Pavão/Pavãozinho cada vez  mais moderna e agora com um elevador futurista.

E andando na areia, entrando e saindo da água, saúdo os amigos que se foram e que não podem estar neste sol glorioso. Saúdo os que estão retidos nos escritórios e olham o mar  como uma hipótese de fim de semana. Recebo como uma bênção essa luz que os que estão no hospital não podem ver.

A Terra é redonda. Errar é humano.

Obrigado, Chapecó!


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